Amor nunca foi recomendado pra gente grande que narra a vida com
controle absoluto. Ele foi feito pra gente descontrolada, mal planejada,
que deixa o tempo fugir pelas frestas dos dedos, e escorrega.
Foi feito
pra gente que desdenha do tempo e se permite convencer do contrário,
não pra gente orgulhosa dos seus feitos metódicos e superiores.
Amor é de gente pequena, frágil, que fica quase sempre à mercê de um
caçador.
Gente essa que se defende como pode e perde de vez em quando,
descobrindo que perda também é um jeito de levar a vida.
Esses que
ganham o tempo todo, ah… amor não é pra eles.
Pra viver um pouco de amor
é mais do que preciso aprender com a perda.
Amor é sentimento de gente que cansa, que recua, que chora e borra a
maquiagem, que deixa cair pela barba pra contrariar o ditado.
Não de
gente que põe um escudo na frente e se impõe como gladiador.
É pra gente
que sofre, sim, e continua sofrendo no dia a dia.
Pra gente que
aprendeu a desistir no meio da luta.
Essa gente toda, altiva e com os
sentimentos musculosos, não sabe sentir as agulhadas que ele dá no
percurso.
Amor é coisa de sonhador, sabia?
De gente que flutua e tira os pés do
chão o tempo todo, de gente que imagina, e imagina demais com um
sorriso na cara, como se tivesse dormindo acordado.
Gente boba, tola,
com um quê infantil que deixa a coisa tomar conta e não se esvai.
Não
serve pra quem domina as situações e se mostra inflexivelmente adulto,
formal, sério demais pra admitir uma brincadeira no meio de uma semana
útil.
É pra gente que não sabe combinar cor e gente que já perdeu na queda
de braço.
Gente que só soube nadar depois de quase ter morrido afogado, e
que ainda dá risadas disso, como se reprovar na vida não tivesse
importância, sabe?
É pra quem se importa, sim, com o que dizem, com o
que pensam, com a ligação do dia seguinte.
Amor é daquela galera que vai mal, obrigado, quer me ouvir?
É pra
quem cria laços nas filas, na rua, no mundo.
Pra quem sorri, mesmo que
falte um dente da frente, e contagia o outro.
Amor é de gente simples
que enfrenta desafios todos os dias desde a hora que acorda e, mesmo
assim, firma um compromisso consigo mesmo de que vai chegar até o fim do
dia bem.
É de gente que pergunta, mesmo podendo nunca ser respondida,
se você quer ficar aqui ou ir embora pra sempre.
Gente que depende, sim,
um pouco que seja do outro.
E que pode deixar de depender porque já
aprendeu que pessoas vão na mesma velocidade em que chegam.
Quem é forte
demais não entende de amor.
Não entende de fragilidade, perseverança,
chuva molhando o terno, falta de proteção e abrigo, nem de
imprevisibilidade.
Quem é forte não sabe ser fraco, frágil, pequeno e,
ainda assim, continuar.
Não, isso não pertence a eles.
É de gente que
tem medo de escuro e passa os dias convivendo com medo e insegurança,
nem sempre se dando bem.
Gente que vai parar num canto e chorar até
desabar pra acordar melhor no dia seguinte.
Gente fraca que
aprendeu a ser forte por causa do amor.
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